25/05/2020

Alejandra Pizarnik


Quem ilumina

Quando me olhas
meus olhos são chaves
o muro tem segredos,
meu temor palavras, poemas.
Só tu fazes de minha memória
uma viajante fascinada,
um fogo incessante.


Poema


Tu escolhes o lugar da ferida
onde emitimos nosso silêncio.
Tu fazes da minha vida
esta cerimônia demasiado pura.

Encontro

Alguém entra no silêncio e me abandona.
Agora a solidão não está só.
Tu falas como a noite.
Te anuncias como a sede.


* * *



Montevideo 980


Escrevi o texto abaixo no começo da primavera de 2011, em Buenos Aires, quando lá vivia. Fui conhecer a última morada de Alejandra Pizarnik (1936-1972), grande poeta e escritora argentina. (D.M.) 

O prédio no número 980 tem oito andares, uma cor entre cinza e gelo e a ampla portaria com luz amarela esmaecida. A metros da ruidosa esquina com Marcelo T. de Alvear, a Calle Montevideo está habitada por árvores baixas, densamente verdes, porém numa moldura de tristeza indefinida. Ao lado, uma loja de acessórios femininos chama-se "Heaven". Na calçada oposta, a caminho de Paraguay, localiza-se o Museo del Holocausto de Buenos Aires. Consegui respirar na voltagem das expectativas e quis compartilhar o voo de uma gaivota marítima até o sétimo andar do edifício onde Alejandra viveu até partir. Fui alcançado pelo talvez anjo que me moveu para o letreiro da confeitaria em frente ao edifício, onde se lê: "Bella tarea". Pensei nos seus olhos vulneráveis à melancolia que vem das experiências interrompidas e, no entanto, percebi que partir não significa esquecer a ansiedade pelo sim dos dias futuros que ela  tentou antecipar, mesmo que tenha sido no breve registro no diário de Paris, domingo, 27 de novembro de 1960:

"Vi el film Los amantes. He entrevisto, por un segundo, cómo sería una vida hecha de aceptación: de sí en vez de no. Pero el temor a intelectualizar, el temor a detener y endurecer una visión imaginaria del futuro, congelándola, haciéndola pasiva y convertida en arquetipo. Y luego mis esfuerzos penosos por acercarme a ella, por remedar esa visión construida en algún instante pasado de mi imaginación, arbitraria y sola, izada como un ejemplo absurdo, como un ídolo sin cabeza, erguida en su imposible. Y soy yo quien me afano por alcanzarme en esa visión. Soy yo que me busco donde no estoy."

O tempo está sucedido e desfeito desde 25 de setembro de 1972, quando Alejandra abreviou a vida antes do amanhecer, deixando o bilhete em cima da mesa:

"No quiero ir nada más que hasta el fondo."

Ela foi muito além do fundo cinza e gelo e, silenciosamente, buscou encontrar o que faltava, onde quer que estivesse, como expressou no diário, sexta-feira, 1º de janeiro de 1960:

"Que este año me sea dado vivir en mí y no fantasear ni ser otras, que me sea dado ponerme buena y no buscar lo imposible sino la magia y extrañeza de este mundo que habito. Que me sean dados los deseos de vivir y conocer el mundo. Que me sea dado el interesarme por este mundo."